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Carta Circular- Uma Igreja que precisa alargar a tenda

  • Foto do escritor: DIOCESE EUNÁPOLIS
    DIOCESE EUNÁPOLIS
  • há 2 horas
  • 10 min de leitura

“Jesus Cristo vive e é o Senhor!”


Irmãos e irmãs,

Vivemos um tempo particularmente significativo para a Igreja. O Espírito Santo nos conduz por um caminho de renovação, de escuta, de discernimento e de missão. As novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil — DGAE 2026–2032, Documento 114 da CNBB, assumem uma imagem muito bonita e profundamente bíblica: a Igreja como tenda do encontro.

A CNBB afirma que a imagem da tenda expressa uma Igreja que acolhe, escuta, discerne, alarga seus espaços e sai em missão. (CNBB)

Por isso, proponho nesta reflexão duas perguntas:

1. O que significa “alargar a tenda”?

2. Depois de alargar a tenda, como cuidar daqueles que estão dentro dela?

Porque existe um perigo: podemos falar tanto em “alargar” que nos esquecemos de cuidar. Uma tenda não é apenas uma estrutura que se amplia. É uma casa provisória, um lugar de encontro, proteção, acolhida e convivência. A Igreja precisa ter espaço para quem chega. Mas precisa também cuidar daqueles que já estão dentro.

A TENDA NA SAGRADA ESCRITURA.

A imagem da tenda atravessa toda a história da salvação. Antes de termos templos, estruturas e grandes construções, encontramos um Deus que caminha com o seu povo.

A tenda é símbolo de um Deus que não permanece distante. Deus arma sua tenda no meio do povo. No livro do Êxodo, encontramos a Tenda da Reunião, lugar da presença de Deus e do encontro com Moisés. A tenda lembra que Deus é um Deus que acompanha. Não é um Deus imóvel. É o Deus do caminho. É o Deus do Êxodo. É o Deus que caminha com seu povo. E chegamos ao Novo Testamento. São João afirma: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.” Literalmente, o texto carrega a ideia de que o Verbo armou sua tenda entre nós. Jesus é a tenda de Deus entre os homens. Deus veio morar conosco. Portanto, quando falamos da Igreja como tenda, não estamos falando simplesmente de uma metáfora pastoral. Estamos falando de uma Igreja que deseja tornar visível o próprio modo de agir de Deus: Deus aproxima-se. Deus escuta. Deus acolhe.Deus acompanha. Deus permanece.


ISAÍAS 54,2 — “ALARGA O ESPAÇO DA TUA TENDA

O profeta Isaías dirige ao povo uma palavra de esperança: “Alarga o espaço de tua tenda!

É uma palavra dirigida a um povo que experimentou sofrimento, abandono e aparente esterilidade. Deus promete um novo futuro. Por isso, a ordem do profeta é muito interessante: Alarga. Estende. Alongue. Firma. São quatro movimentos. Primeiro: ALARGAR. “Alarga o espaço da tua tenda.” Significa não aceitar uma Igreja pequena em seus horizontes. Não podemos pensar: “Já somos suficientes.” “Já temos nossos grupos.”

“Já temos nossas pastorais.” “Já temos nossas comunidades.” O Evangelho sempre nos provoca a perguntar: Quem ainda não encontrou lugar entre nós? Quem está fora? Quem se afastou? Quem chegou e não foi acolhido? Quem está procurando Deus, mas não encontrou uma comunidade capaz de recebê-lo?

ALARGAR NÃO SIGNIFICA ABANDONAR AS ESTACAS.

Aqui está um ponto fundamental. Isaías não diz apenas: “Alarga a tenda.”Ele também diz: “Firma bem as tuas estacas.” Isso é muito importante para a pastoral. Uma Igreja que alarga sem firmar suas estacas pode perder sua identidade. Alargar não significa relativizar o Evangelho. Alargar não significa abandonar a fé. Alargar não significa deixar de anunciar Jesus Cristo. Pelo contrário. Nós alargamos porque temos uma identidade. Temos um centro. Temos uma razão de existir. Nossa tenda está firmada em Jesus Cristo. A Palavra de Deus é uma estaca. A Eucaristia é uma estaca. A comunhão é uma estaca. A oração é uma estaca. A tradição apostólica é uma estaca. A doutrina da Igreja é uma estaca. A caridade é uma estaca.A missão é uma estaca. Portanto: quanto mais alargamos, mais precisamos aprofundar nossas raízes.

A TENDA DO ENCONTRO NAS DGAE 2026–2032

As novas DGAE assumem precisamente essa imagem. O primeiro capítulo apresenta “A Igreja: tenda do encontro”. A CNBB explica que a tenda acolhe todos e pode ser continuamente alargada conforme as necessidades. (CNBB) Isso coloca diante de nós uma mudança de mentalidade. Não basta perguntar: “Quem está participando da Igreja?” Precisamos perguntar: “Quem estamos deixando de alcançar?” Não basta perguntar: “Como podemos manter nossas estruturas?” Precisamos perguntar: “Nossas estruturas estão a serviço da missão?” Não basta perguntar: “Como podemos fazer nossa pastoral funcionar?” Precisamos perguntar: “Nossa pastoral está levando as pessoas ao encontro com Jesus Cristo?”

A TENDA É LUGAR DE ACOLHIDA

A primeira atitude de uma Igreja-tenda é: acolher. Acolher não é simplesmente receber alguém na porta da igreja. Acolher significa fazer a pessoa perceber: “Aqui existe lugar para mim.” Quantas pessoas chegam às nossas comunidades e permanecem invisíveis?

Quantas pessoas participam da missa, mas ninguém sabe seus nomes? Quantas famílias procuram a Igreja em momentos de dor e encontram uma estrutura, mas não encontram um abraço? Quantos jovens chegam e não encontram espaço? Quantas crianças chegam e não encontram uma comunidade preparada para caminhar com elas? Quantos idosos estão dentro da Igreja, mas sentem-se sozinhos? Quantas pessoas foram batizadas, receberam os sacramentos, mas não foram verdadeiramente integradas à comunidade? A tenda precisa ser grande. Mas, sobretudo, precisa ser humana.

A TENDA É LUGAR DE ESCUTA

As DGAE colocam a escuta dos sinais como um dos grandes movimentos da ação evangelizadora. O processo de elaboração das novas Diretrizes foi marcado por ampla escuta e discernimento. (CNBB) Uma Igreja sinodal não é uma Igreja que apenas fala. É uma Igreja que aprende a escutar. Escutar Deus. Escutar a Palavra. Escutar o Espírito Santo. Escutar uns aos outros. Escutar a sociedade. Escutar os pobres. Escutar os jovens. Escutar as famílias. Escutar aqueles que pensam diferente. Escutar também aqueles que estão feridos pela própria experiência religiosa. Escutar não significa concordar com tudo. Escutar significa reconhecer que o outro merece ser ouvido. Antes de falar: escutar. Antes de julgar:escutar. Antes de decidir: escutar. Antes de planejar: escutar.

ALARGAR A TENDA É SAIR DO “SEMPRE FOI ASSIM”

Existe uma tentação pastoral muito forte: “Sempre fizemos assim.” Mas a missão de Jesus não cabe no “sempre foi assim”. O Espírito Santo continua falando. A realidade muda. A cultura muda. As famílias mudam. Os jovens mudam. A comunicação muda. As cidades mudam. Os desafios sociais mudam. E a Igreja precisa discernir como anunciar o mesmo Evangelho em novas circunstâncias. Não mudamos o Evangelho. Mudamos, quando necessário, os modos de anunciá-lo. Não mudamos Jesus. Mudamos nossa maneira de chegar às pessoas. Não abandonamos a missão. Encontramos novos caminhos para realizá-la.

MAS QUEM CUIDA DE QUEM ESTÁ DENTRO DA TENDA?

Aqui chegamos à segunda parte da nossa reflexão. Alargar a tenda não pode significar esquecer quem já está dentro. Uma Igreja missionária precisa ser também uma Igreja cuidadora. Jesus não apenas chama pessoas. Jesus acompanha pessoas. Jesus forma discípulos. Jesus cura feridas. Jesus alimenta.Jesus perdoa. Jesus restaura. Jesus envia.

Precisamos cuidar: da fé dos nossos agentes; da vida espiritual dos sacerdotes; das famílias; das crianças; dos adolescentes; dos jovens; dos idosos; dos consagrados; dos catequistas; dos ministros; dos missionários; dos pobres; dos que trabalham silenciosamente pela Igreja. Há pessoas que trabalham muito pela Igreja e estão espiritualmente cansadas. Há agentes de pastoral que servem, mas ninguém pergunta: “Como você está?” Há pessoas que sempre ajudam os outros, mas também precisam ser cuidadas.

NÃO PODEMOS TER UMA IGREJA QUE ENVIA, MAS NÃO CUIDA

Essa é uma questão pastoral fundamental. Às vezes dizemos: “Precisamos de mais missionários.” Sim. Mas também precisamos perguntar: Quem está cuidando dos missionários? Dizemos “Precisamos de mais catequistas. Sim. Mas: quem está formando e acompanhando os catequistas? Precisamos de ministros. Mas: quem está cuidando da espiritualidade dos ministros? Precisamos de coordenadores. Mas: quem acompanha os coordenadores? Precisamos de comunidades. Mas: quem ajuda nossas comunidades a permanecerem vivas? Uma Igreja saudável precisa de duas mãos: uma mão que acolhe quem chega; outra mão que sustenta quem já está caminhando.

A TENDA COMO CASA DE PROTEÇÃO

Uma tenda oferece proteção. Isso nos leva a uma dimensão profundamente evangélica: a Igreja precisa ser lugar seguro. Lugar onde as pessoas possam encontrar respeito. Lugar onde ninguém seja humilhado. Lugar onde os pequenos sejam protegidos. Lugar onde os pobres tenham voz. Lugar onde a dignidade humana seja defendida. As DGAE 2026–2032 apresentam, entre seus caminhos, o Serviço à Vida Plena, incluindo a opção evangélica e preferencial pelos pobres, o cuidado da Casa Comum e a promoção da dignidade humana(CNBB). Portanto, a tenda não é somente um espaço litúrgico. A tenda se estende para a sociedade. A Igreja sai da sacristia. A Igreja encontra as periferias. A Igreja encontra os pobres. A Igreja encontra os que sofrem. A Igreja encontra a Casa Comum.


CINCO MOVIMENTOS PARA UMA IGREJA-TENDA.

As DGAE apresentam um caminho de renovação da ação evangelizadora. Podemos traduzi-lo pastoralmente em cinco movimentos:

1. ACOLHER

Abrir espaço para que todos encontrem lugar.

2. ESCUTAR

Aprender a ouvir Deus, as pessoas e os sinais dos tempos.

3. DISCERNIR

Não agir simplesmente por impulso, costume ou preferência pessoal. Perguntar:

“Senhor, o que o Espírito está dizendo à Igreja neste momento?”

4. CAMINHAR JUNTOS

A sinodalidade não é uma técnica. É um modo de ser Igreja. Bispos, padres, diáconos, religiosos, religiosas e leigos não são concorrentes. Somos membros do mesmo Corpo de Cristo.

5. ENVIAR. A tenda não é acampamento permanente. Ela é também lugar de partida.

Entramos para encontrar Cristo. Somos cuidados. Somos formados. E depois somos enviados.

A TENDA NÃO PODE SE TRANSFORMAR EM MUSEU.

Uma pergunta pastoral: Nossa comunidade é uma tenda ou um museu? O museu conserva. A tenda acolhe. O museu olha para o passado. A tenda está aberta ao caminho. O museu tem peças que não podem ser tocadas. A tenda tem pessoas que precisam ser encontradas. Precisamos respeitar nossa história. Mas não podemos viver apenas de lembranças. A pergunta não é: “Como era a Igreja antigamente?” A pergunta também precisa ser: “Como o Espírito Santo nos chama a ser Igreja hoje?”

ALARGAR PARA FORA E APROFUNDAR PARA DENTRO.

Talvez esta seja a síntese da nossa reflexão: ALARGAR PARA FORA. Para alcançar os que estão longe. Para chegar às periferias. Para encontrar os pobres. Para dialogar com a cultura. Para acompanhar os jovens. Para fortalecer as famílias. Para anunciar Jesus nas novas realidades.

APROFUNDAR PARA DENTRO.

Na Palavra de Deus. Na Eucaristia.Na oração. Na formação. Na comunhão. Na espiritualidade. Na vida comunitária. Na caridade. Porque: uma Igreja que só olha para dentro torna-se autorreferencial. Mas: uma Igreja que só olha para fora pode perder suas raízes. Por isso: alargar a tenda e aprofundar as estacas.

UMA PERGUNTA PARA CADA PARÓQUIA E COMUNIDADE.

Gostaria de propor algumas perguntas para o nosso discernimento pastoral: Quem ainda não cabe na nossa tenda? Quem está chegando e não está sendo acolhido? Quem está dentro da tenda e está cansado? Quem está dentro da tenda e está sozinho? Quem está dentro da tenda e precisa ser formado? Quem está fora da tenda esperando uma palavra de esperança? Quais estruturas precisam ser alargadas? Quais estruturas precisam ser transformadas? Quais estruturas precisam ser encerradas para que outras possam nascer? Quais são as nossas “estacas” que não podemos perder?

UMA IGREJA DE CORAÇÃO ABERTO.

Alargar a tenda é, antes de tudo, uma conversão do coração. Não adianta ampliar estruturas se não ampliamos o coração. Podemos construir grandes espaços e continuar tendo uma Igreja pequena. Podemos organizar muitos eventos e continuar sem encontrar as pessoas. Podemos ter muitas pastorais e ainda não ter verdadeira comunidade. Podemos ter muitos agentes e pouca comunhão. Por isso, a verdadeira tenda começa dentro de nós. Alargar a tenda é alargar o coração. É vencer preconceitos. É superar divisões. É abandonar o espírito de competição. É aprender a trabalhar juntos. É deixar de pensar: “Essa pastoral é minha.” E começar a dizer: “A missão é nossa.”

JESUS É A TENDA DEFINITIVA.

No centro de tudo está Jesus. Ele é aquele que arma sua tenda no meio de nós. Ele é o verdadeiro lugar do encontro entre Deus e a humanidade. Por isso, não estamos alargando a tenda para simplesmente colocar mais pessoas dentro de uma estrutura. Estamos alargando a tenda para que mais pessoas possam encontrar Jesus Cristo. Essa é a finalidade última da evangelização. Não é simplesmente aumentar números. É formar discípulos. Não é simplesmente ocupar espaços. É levar o Evangelho. Não é simplesmente conservar comunidades. É gerar comunidades vivas. Não é simplesmente administrar estruturas.É servir ao Reino de Deus.

CONCLUSÃO — “ALARGA A TENDA!”

Irmãos e irmãs, Isaías nos diz: “Alarga o espaço da tua tenda.” Hoje, esta Palavra pode ser dirigida à nossa Igreja no Brasil. Pode ser dirigida à nossa diocese. Às nossas paróquias. Às nossas comunidades. Às nossas pastorais. A cada um de nós. Alarga a tenda! Alarga o coração. Alarga a escuta. Alarga a acolhida. Alarga a missão. Alarga a comunhão. Alarga a esperança. Mas não esqueças as estacas. Firma tua fé em Cristo. Firma tua vida na Palavra. Firma tua comunidade na Eucaristia. Firma tua missão na caridade. E, sobretudo: cuida daqueles que já estão dentro da tenda. Cuida dos cansados. Cuida dos que servem. Cuida dos pequenos. Cuida das famílias. Cuida dos jovens. Cuida dos idosos. Cuida dos pobres. Cuida dos missionários. Cuida dos sacerdotes.Cuida uns dos outros. Porque uma Igreja verdadeiramente sinodal é aquela que sabe: acolher quem chega, escutar quem fala, acompanhar quem caminha, cuidar de quem está cansado e enviar todos para a missão. Que nossas comunidades sejam verdadeiras tendas do encontro. Tendas abertas. Tendas acolhedoras. Tendas missionárias. Tendas onde ninguém seja invisível. Tendas onde ninguém seja descartado. Tendas onde os feridos encontrem cura. Tendas onde os pobres encontrem dignidade. Tendas onde os jovens encontrem esperança. Tendas onde as famílias encontrem apoio. Tendas onde os agentes encontrem cuidado. Tendas onde todos possam fazer a experiência de que: Deus está no meio de nós. E que a nossa Igreja possa repetir, com Isaías: “Alarguemos o espaço da nossa tenda, estendamos nossas lonas, alonguemos nossas cordas e firmemos nossas estacas!” Não tenhamos medo. O Espírito Santo nos precede. Jesus Cristo caminha conosco. E a missão continua.


ORAÇÃO FINAL

Senhor Jesus, Tu que armaste tua tenda entre nós, ensina-nos a ser uma Igreja de portas abertas e coração acolhedor. Dá-nos coragem para alargar nossa tenda, sabedoria para escutar, humildade para discernir, generosidade para caminhar juntos

e ardor para sair em missão. Cuida daqueles que já estão dentro de nossas comunidades. Fortalece os que estão cansados. Consola os que sofrem. Anima os que servem. Acompanha os nossos jovens. Protege nossas famílias. Dá-nos um coração próximo dos pobres e dos que vivem nas periferias. Que nossas estruturas estejam a serviço da missão. Que nossa pastoral seja verdadeiramente sinodal. Que nossa Igreja seja tenda de encontro, tenda de acolhida, tenda de esperança, tenda de missão. E que, firmados em Cristo, possamos alargar sem medo o espaço da nossa tenda. Maria, Mãe da Igreja e mulher da escuta, ensina-nos a caminhar juntos. São José, homem do silêncio e da obediência, ensina-nos a ouvir a voz de Deus. Espírito Santo, Espírito de comunhão e missão, renova a face da nossa Igreja. Amém.

Com minha benção apostólica.


Dom José Edson Santana Oliveira

1° Bispo Diocesano de Eunápolis.

Costa do Descobrimento.


25 de Agosto de 2026.


 
 
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