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  • Foto do escritorPascom Diocese de Eunápolis -BA

Uma Igreja Peregrina na Esperança: 524 anos de Evangelização no Brasil


Desde as mais antigas atividades cristãs, a recordação dos fatos históricos guiados pelo Dedo de Deus marcou o amadurecimento, o discernimento e a projeção do um futuro gerado na experiência daqueles que abraçavam a fé. Sempre foi prioridade dos alcançados pela vida de Cristo desenvolver a pessoa humana em sua dignidade, provocando os homens e as mulheres que percorreram a história a reler os sinais dos tempos sob a ótica do mistério do amor de Deus. Desse modo, a vida das primeiras comunidades foi fortemente marcada pela memória viva dos feitos de Deus renovados pelo Mistério Pascal, este atualizado no mistério da fração do pão. Ainda hoje, a Igreja cresce e se desenvolve na esperança evangélica de olhar o futuro com as raízes do passado, colhendo os frutos da evangelização ecoada da experiência com o Deus que se debruça sobre sua criação, atraindo-a a Si em sua infinita e invencível fidelidade.

 

Nas terras brasileiras, há 524 anos, foram plantadas as primeiras sementes do anúncio da boa-nova. Por meio de instrumentos frágeis – os frades franciscanos da primeira hora –, o Deus Onipotente, mais uma vez e como a única vez, toca sua criação nas espécies eucarísticas para emanar o fiel amor que atrai a Si. Historicamente, o primeiro ato público no solo brasileiro foi o maior culto que a criatura alcançada pela bondade presta ao seu Criador: o Santo Sacrifício, a oferta daquele que se fez Sacerdote, Altar e Cordeiro Pascal na Santa Missa. Assim, desde o início, o povo brasileiro é convidado para o “banquete nupcial do Cordeiro”, assumindo a eleição de ser o fruto bendito de um amor singular, destinado às vitórias da comunhão com o Vitorioso que “àqueles que o esperavam, conduz à nova sorte” (Hino das Laudes no Tempo da Páscoa).

 

A memória dos 524 anos da primeira Santa Missa realizada em solo brasileiro, na Praia de Coroa Vermelha, é um convite aos fiéis brasileiros de todos os tempos a voltar os olhos e os corações ao grande sinal dado por Deus como recompensa à fidelidade dos que chamou a Si: uma terra rica de frutos, de harmonia e de comunhão, manifestando uma aliança que fundamenta e alimenta a esperança no Senhor da História. É por isso que a Igreja continua a caminhar na história, ao lado dos homens e das mulheres que precisam ser vivificados pelo testemunho do Evangelho!

 

A narrativa histórica comprova que os primeiros missionários que pisaram nossas terras, com seus limites e fraquezas, tentavam reger suas vidas pela verdade da fé Católica. Assim como todos somos chamados a celebrar com a vida os mistérios de Cristo no ciclo litúrgico, aqueles irmãos deixaram marcado, com registros precisos, que a experiência da busca da comunhão com Deus foi e sempre será a referência mais eficaz do quanto Deus age se valendo de instrumentos simples para manifestar Sua bondade a todos os homens por Ele amados. Assim, enchendo-nos de esperança em meio aos sinais da história, renovamos a consciência de que jamais caminhamos sozinhos, mas esteve, está e estará conosco Aquele que prometeu conosco permanecer: o Cristo Ressuscitado.

 

Desde a experiência mais primitiva, a renovação dos eleitos se deu no dia a dia com o Ressuscitado que confirmou sua presença verdadeira e eficaz por sinais: também nós, novo povo eleito, devemos observar que grande sinal fundamenta nossa fé e nossa esperança: o dom pascal da Eucaristia. Nós, como todo o povo cristão, podemos bradar: “a Eucaristia nos faz Igreja, comunidade de amor” (cf. “Vinde, ó irmãos, adorar”). O sinal que acompanha essa Igreja viva é uma das perseveranças apostólicas, aquela que fortalece, purifica e estabelece vínculos concretos com o Deus que nos quer discípulos missionários da esperança para todos os irmãos e guardiões da criação. Desse modo, como portadores da experiência pascal viva e renovada, devemos promover a restauração da comunhão de todos com Deus, consigo mesmos, com os outros e com a criação. Somos chamados a, em Cristo, dar a todas as coisas um novo sentido como uma nação genuinamente pascal.

 

“Num dia como hoje, nesse solo pátrio, foi celebrada a Santa Missa por Frei Henrique Soares de Coimbra, Franciscano e Capelão-Mor da Esquadra de Cabral. Pela primeira vez o Evangelho foi anunciado, a Santa Palavra de Deus chegava nesta terra anunciando a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte! (Era oitava de Páscoa.) O lenho verde colocado na terra brotou e produziu flores e frutos. Muitos os negam, mas deles ainda se alimentam! Desde então, todos os dias, em todos os altares desta Terra de Santa Cruz, se renova o Santo Sacrifício do Altar. Glória a Jesus na Hóstia Santa que, há 524 anos, se consagra sobre o altar, e aos nossos olhos se levanta para o Brasil abençoar!” (Dom José Edson Santana Oliveira, Bispo Diocesano de Eunápolis – Costa do Descobrimento do Brasil em 26/04/2022)

 

Somos, como nos relembra o grande Jubileu de 2025, “Peregrinos da Esperança”, uma nação sustentada e renovada por essa força que vem do Alto. Nesta peregrinação, “nesta travessia”, acompanha-nos o carinho maternal de Maria, que acolheu a razão de toda esperança em si, abraçando a vontade de Deus e tornando-se serva-missionária do plano da Salvação. Maria Mãe da Esperança, cuja imagem trouxeram os primeiros missionários que se colocavam sob sua proteção nas aventuras dos mares nunca antes navegados, continua a volver seus olhos sobre esta nação nascida também sob sua proteção. Esse sinal profético convoca-nos, hoje, a também desbravar os mares ainda não navegados, buscando aqueles que, nas periferias sociais, existenciais, geográficas e eclesiais, precisam lançar-se no mar que soma e multiplica os “pescadores de homens” (cf. Mt 4,19) desejados pelo Senhor. Nossos métodos e nossas redes devem ser cada dia mais abertos aos sinais dos tempos, sem medo e sem barreiras, mas esperançosamente confiantes em colaborar – e não atrapalhar – o alcance do amor de Deus que renova todas as coisas e afasta a terrível cultura que leva tantos a se sentirem “inacabados e falidos” (cf. DGAE 164). Precisamos caminhar juntos!

 

Que esta Mãe bondosa continue a proteger-nos à sombra de seu manto, a fim de que, firmes na esperança, possamos nos abrir ao novo de Deus que sempre nos convida, a uma mais madura e plena comunhão cristã, recuperando o ânimo de promover – a partir desta nação – a pessoa humana em sua integral dignidade, devolvendo a oportunidade de abraçar o Cristo que dá sentido à vida e promove a ética e a solidariedade, como frutos da autêntica vocação batismal.


Por Pe. Danilo Felipe Maciel

Imagem: Óleo sobre tela  do pintor brasileiro Victor Meirelles


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